segunda-feira, 19 de outubro de 2009

4 textos de Herta Muller

A cova


Há roseiras em volta do monumento aos combatentes. Transformaram-se em matagal. Tão emaranhadas que asfixiam as ervas. Dão rosas brancas, pequenas e amarrotadas como papel. Rumorejam. Começa a amanhecer. Em breve será dia.

Todas as manhãs, no seu caminho solitário em direcção à azenha, Windisch regista o dia que começa. Em frente ao monumento aos combatentes, conta os anos. Mais adiante, junto ao primeiro choupo onde a bicicleta passa sempre pela mesma cova, conta os dias. E à noite, quando fecha a porta da azenha, Windisch conta de novo os anos e os dias.

Lá de longe vê as pequenas rosas brancas, o monumento aos combatentes e o choupo. E, se há nevoeiro, ao passar de bicicleta o branco das rosas e o branco da pedra estão ali mesmo à sua frente. Windisch atravessa o nevoeiro. Windisch tem o rosto húmido e segue até chegar à azenha. Por duas vezes as roseiras mostraram os espinhos nus e as ervas rasteiras tiveram a cor da ferrugem. Por duas vezes o choupo esteve tão despido que as hastes ameaçavam quebrar-se. Por duas vezes a neve cobriu os caminhos.

Windisch conta dois anos junto ao monumento aos combatentes e duzentos e vinte e um dias ao transpôr a cova ao pé do choupo.

Todos os dias, ao passar a cova, Windisch pensa: “O fim está próximo.” Desde que pensou em emigrar, Windisch vê o fim por toda a parte na aldeia. E o tempo que parou para todos os que querem ficar. E que o guarda-nocturno para ali vai ficar, para além do fim, segundo lhe parece.

E depois de ter contado duzentos e vinte e um dias e ter sido sacudido ao passar a cova, Windisch desmonta pela primeira vez. Encosta a bicicleta ao choupo. Os seus passos fazem barulho. No jardim da igreja esvoaçam pombos bravos. São cinzentos como a luz. Só o ruído os torna diferentes.

Windisch faz o sinal da cruz. O batente da porta está molhado. Fica-lhe colado à mão. A porta da igreja está trancada. E Santo António está do outro lado da parede. Segura nas mãos um lírio branco e um livro castanho. Está encerrado.

Windisch sente frio. Olha ao longo da rua. Onde a rua acaba, irrompem as ervas na aldeia. Lá ao fundo segue um homem. O homem é um risco negro que segue por entre as plantas. As ervas pujantes fazem-no pairar sobre a Terra.

A navalha

Windisch está sentado na cozinha em frente à janela. Está a fazer a barba. Vai pincelando a espuma branca pela cara. A espuma range-lhe nas faces. Windisch espalha a neve com os dedos em volta da boca. Olha para o espelho. Vê reflectida a porta da cozinha. E o seu rosto.

Windisch vê que pôs demasiada neve na cara. Vê que tem a boca envolta em neve. Sente que a neve na narina e no queixo não o deixa falar.

Windisch abre a navalha. Experimenta o gume da navalha na pele dum dedo. Põe a lâmina em posição abaixo do olho. A maçã do rosto não se move. Windisch alisa as rugas abaixo do olho com a outra mão. Olha pela janela. Lá fora está a erva verde.

A navalha estremece. A lâmina arde.

Windisch tem há muitas semanas uma ferida debaixo do olho. Está vermelha. Tem uma orla de pus. Todas as noites está cheia de farinha.

Há alguns dias que cresce uma crosta por baixo do olho de Windisch.

De manhã, Windisch sai de casa com a crosta. Quando abre a porta da azenha e mete o cadeado na algibeira do casaco, Windisch leva a mão à face. A crosta desapareceu.

“Talvez a crosta tenha ficado na cova”, pensa Windisch.

Quando começa a clarear lá fora, Windisch vai até junto do açude da azenha. Põe-se de joelhos na erva. Olha o rosto reflectido na água. Pequenos círculos batem-lhe na orelha. O cabelo faz tremer a imagem.

Por baixo do olho, Windisch tem uma cicatriz branca e curva.

Uma folha de cana está dobrada. Abre-se e fecha-se junto da sua mão. A folha de cana tem uma lâmina castanha.


Os galos
Os sinos do relógio da igreja batem as cinco horas. Windisch sente nódulos frios nas pernas. Vai ao pátio. Por cima da sebe passa o chapéu do guarda-nocturno.

Windisch vai ao portão. O guarda-nocturno apoia-se ao poste do telégrafo. Fala sozinho. “Mas onde está ela, onde é que ela está, a mais bela de todas as rosas”, diz ele. O cão está sentado no pavimento. Come uma minhoca.

Windisch diz: “Konrad.” O guarda-nocturno olha para ele. “A coruja está pousada nos pastos atrás da meda de palha”, diz ele. “A Kroner já morreu.” Boceja. O hálito cheira a aguardente.

Os galos cantam na aldeia. Têm vozes agrestes. Trazem a noite no bico.

O guarda-nocturno segura-se à sebe. Tem as mãos sujas. E os dedos são tortos.



A marca do beijo


Amalie está parada à entrada do quarto. Os estilhaços têm manchas vermelhas. O sangue de Windisch é mais vermelho do que o vestido de Amalie.

Um último sopro de ‘primavera irlandesa’ paira nas barrigas das pernas de Amalie. O chupão no pescoço de Amalie é mais vermelho do que o vestido. Amalie descalça as sandálias brancas. “Venham comer”, diz a mulher de Windisch.

A sopa fumega. Amalie está sentada no nevoeiro. Segura a colher com as pontas dos dedos vermelhas. Olha para a sopa. O vapor move os lábios. Ela sopra. A mulher de Windisch senta-se com um suspiro no meio da nuvem cinzenta diante do talher.

Pela janela ouve-se o rumorejar das folhas das árvores. “Lá voam elas para o pátio”, pensa Windisch. “Folhas que davam para dez árvores voam pelo pátio.”

Windisch passa distraidamente os olhos pela concha do ouvido de Amalie. Ela faz parte do seu campo de visão. É avermelhada e dobrada como uma pálpebra.

Windisch engole uma massa branca e mole. Fica-lhe presa na garganta. Windisch poisa a colher em cima da mesa e tosse. Os olhos enchem-se de água.

Windisch vomita a sopa na sopa. Tem a boca azeda. Ela avança-lhe pela testa. A sopa dentro do prato fica turva com a sopa vomitada.

Na sopa que tem no prato Windisch vê um pátio longínquo. No pátio, uma noite de verão.



[in O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra, tradução de Maria Antonieta C. Mendonça, Cotovia, 1993]

Herta Muller


Herta Müller (nascida em 17 de agosto de 1953) é  romena, radicou-se na Alemanha e como romancista a, poeta e ensaísta é conhecida por obras sobre as duras condições de vida na Roménia comunista sob o repressivo regime de Nicolae Ceausescu, a história dos alemães no Banat (e mais amplamente, Transilvânia), e a perseguição dos romenos de etnia alemã por forças estalinista  de ocupação soviéticas na Roménia e o modo como a União Soviética impôs o regime comunista da Romênia. É conhecida desde 1990. A sua obra está traduzida em 20 línguas.Recebeu mais de 20 prémios, incluindo em 1994 o Prémio Kleist, em 1995 Aristeion Prize, em 1998 o International IMPAC Dublin Literary Award 2009 e Franz Werfel Prêmio de Direitos Humanos.  Em 8 de Outubro de 2009, foi anunciado que seria premiada com o  Prémio Nobel de Literatura.


Obras publicadas:
Niederungen, histórias curtas, versão censurada publicado em Bucareste, 1982. Uncensored version published in Germany 1984. Versão censurada publicado na Alemanha 1984. Published in English as Nadirs in 1999 by the University of Nebraska Press. [ 18 ] Publicado em Inglês como Nadirs em 1999 pela University of Nebraska Press. [18]


Drückender Tango ("Oppressive Tango"), stories, Bucharest, 1984 Drückender Tango ( "Oppressive Tango"), histórias, Bucareste, 1984

Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt , Berlin, 1986. Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt, Berlim, 1986. Published in English as The Passport , Serpent's Tail , 1989 ISBN 9781852421397 Publicado em Inglês como O Passaporte, Serpent's Tail, 1989 ISBN 9781852421397

Barfüßiger Februar ("Barefoot February"), Berlin, 1987 Barfüßiger Februar ( "Barefoot Fevereiro"), Berlim, 1987

The Absolute Wasteman novella, Berlin, 1987 A novela Wasteman Absoluto, Berlim, 1987

Reisende auf einem Bein , Berlin, 1989. Reisende auf einem Bein, Berlim, 1989. Published in English as Traveling on One Leg , Hydra Books / Northwestern University Press , 1992. [ 19 ] Publicado em Inglês como Viajando em uma perna, Livros Hydra / Northwestern University Press, 1992. [19]

Wie Wahrnehmung sich erfindet ("How Perception Invents Itself"), Paderborn, 1990 Wie sich erfindet Wahrnehmung ( "Como inventa a própria percepção"), Paderborn, 1990

Der Teufel sitzt im Spiegel ("The Devil is Sitting in the Mirror"), Berlin, 1991 Der Teufel sitzt im Spiegel ( "O Diabo está sentado no Espelho"), Berlim, 1991

Der Fuchs war damals schon der Jäger ("Even Back Then, the Fox Was the Hunter"), Reinbek bei Hamburg, 1992 Der Fuchs war damals schon der Jäger ( "Mesmo naquela época, o Fox foi o Caçador"), Reinbek bei Hamburg, 1992

Eine warme Kartoffel ist ein warmes Bett ("A Warm Potato Is a Warm Bed"), Hamburg, 1992 Eine warme Kartoffel warmes ist ein Bett ( "A batata quente é uma cama quente"), Hamburgo, 1992

Der Wächter nimmt seinen Kamm ("The Guard Takes His Comb"), Reinbek bei Hamburg, 1993 Der Wächter nimmt seinen Kamm ( "A Guarda Toma o pente"), Reinbek bei Hamburg, 1993

Angekommen wie nicht da ("Arrived As If Not There"), Lichtenfels, 1994 Angekommen wie nicht da ( "chegou como se Not There"), Lichtenfels, 1994

Herztier , Reinbek bei Hamburg, 1994. Herztier, Reinbek bei Hamburg, 1994. Published in an English translation by Michael Hofmann as The Land of Green Plums , Metropolitan Books / Henry Holt & Company , New York, 1996 [ 20 ] Publicado em uma tradução Inglês por Michael Hofmann como A Terra do Verde Ameixas, Metropolitan Books / Henry Holt & Company, Nova Iorque, 1996 [20]

Hunger und Seide ("Hunger and Silk"), essays, Reinbek bei Hamburg, 1995 Hunger und Seide ( "Fome e da Seda"), ensaios, Reinbek bei Hamburg, 1995

In der Falle ("In a Trap"), Göttingen 1996 In der Falle ( "em uma armadilha"), Göttingen 1996

Heute wär ich mir lieber nicht begegnet , Reinbek bei Hamburg, 1997. Heute wär ich mir nicht lieber begegnet, Reinbek bei Hamburg, 1997. Published in English as The Appointment , Metropolitan Books/ Picador , New York/London, 2001 Publicado em Inglês como a nomeação, Metropolitan Books / Picador, Nova York / Londres, 2001

Der fremde Blick oder das Leben ist ein Furz in der Laterne ("The Foreign View, or Life Is a Fart in a Lantern"), Göttingen, 1999 Der fremde Blick oder das Leben ist ein Furz in der Laterne ( "A Visão dos Negócios Estrangeiros, ou a vida é um peido em uma lanterna"), Göttingen, 1999

Im Haarknoten wohnt eine Dame ("A Lady Lives in the Hair Knot"), poetry, Reinbek bei Hamburg, 2000 Im Haarknoten wohnt eine Dame ( "A Vida Lady in the Knot Hair"), poesia, Reinbek bei Hamburg, 2000

Heimat ist das, was gesprochen wird ("Home Is What Is Spoken There"), Blieskastel, 2001 Ist Heimat, foi gesprochen wird ( "Home Is What Is Spoken There"), Blieskastel, 2001

A good person is worth as much as a piece of bread , foreword published in Kent Klich's Children of Ceausescu by Journal, 2001 and Umbrage Editions, 2001. Uma boa pessoa vale tanto quanto um pedaço de pão, prefácio publicado em Crianças Kent Klich de Ceausescu pelo Journal, 2001 e Edições Umbrage, 2001. Published in Swedish as En god människa är lika mycket värd som ett stycke bröd in Kent Klich's Ceausescu's barn by Journal, 2001 Publicado em sueco como En Deus människa är lika mycket ett stycke värd som bröd no celeiro Kent Klich de Ceausescu pelo Journal, 2001

Der König verneigt sich und tötet ("The King Bows and Kills"), essays, Munich (and elsewhere), 2003 Tötet Der König und sich verneigt ( "The King and Bows Mortos"), ensaios, Munique (e não só), 2003

Die blassen Herren mit den Mokkatassen ("The Pale Gentlemen with their Espresso Cups"), Munich (and elsewhere), 2005 Blassen Die Herren mit den Mokkatassen ( "The Gentlemen pálida com seus Chávenas"), Munique (e não só), 2005

Este sau nu este Ion ("Is He or Isn't He Ion"), collage-poetry written and published in Romanian, Iaşi , Polirom, 2005 Este sau nu este Ion ( "ele é ou Não é Ele Ion"), colagem, poesia escrita e publicada em romeno, Iaşi, Polirom, 2005


Atemschaukel , Munich, 2009. Atemschaukel, Munique, 2009. Published in English as Everything I Possess I Carry With Me , Granta/ Metropolitan Books, 2009. [ 21 ] Publicado em Inglês como tudo que possuo eu carrego comigo, Granta / Metropolitan Books, 2009.