terça-feira, 6 de março de 2007

Marguerite Yourcenar


Marguerite Yourcenar, pseudónimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour (anagrama de Yourcenar) (8 de junho de 1903, Bruxelas, - 17 de dezembro de 1987, Mount Desert Island, Maine, EUA) foi uma escritora belga de língua francesa. Foi a primeira mulher eleita à Academia francesa em 1981, após uma campanha e apoio ativos de Jean d'Ormesson, que escreveu o discurso de sua admissão.
Ela foi educada de forma privada e de maneira excepcional: lia Jean Racine com oito anos de idade, e seu pai ensinou-lhe o latim aos oito anos e grego aos doze.
Em 1939 mudou-se para os Estados Unidos, onde passou o resto de sua vida, obtendo a cidadania estado-unidense em 1947 e ensinando literatura francesa até 1949.
As suas Mémoires d´Hadrien (Memórias de Adriano), de 1951, tornaram-na internacionalmente conhecida. Este sucesso seria confirmado com L'Œuvre au Noir (A Obra em Negro, 1968), uma biografia de um herói do século XVI, chamado Zénon, atraído pelo hermetismo e a ciência. Publicou ainda poemas, ensaios (Sous bénéfice d'inventaire, 1978) e memórias (Archives du Nord, 1977), manifestando uma atracção pela Grécia e pelo misticismo oriental patente em trabalhos como Mishima ou La vision du vide (1981) e Comme l´eau qui coule (1982).

Obras
O Jardim das Quimeras (Le jardin des chimères) (1921) ;
Alexis ou o tratado do vão combate (Alexis ou le traité du vain combat) (1929, romance) ;
La nouvelle Eurydice (1931, romance) ;
Fogos (Feux) (1936, poemas em prosa) ;
Contos orientais (Nouvelles orientales) (1938) ;
Les songes et les sorts (1938) ;
Le coup de grâce (1939, romance) ;
Memórias de Adriano (Mémoires d'Hadrien) (1951) ;
Électre ou La chute des masques (1954) ;
A Obra em Negro (L'Œuvre au noir) (1968) ;
Souvenirs pieux (1974) ;
O Labirinto do Mundo (1974-77);
Arquivos do Norte (Archives du Nord) (1977);
Mishima ou A Visão do Vazio (1981);
O Tempo, Esse Grande Escultor (1983);
D'Hadrien à Zénon : correspondance, 1951-1956 (2004), Paris : Gallimard. 630 p. Texto compilado e comentado por Colette Gaudin e Rémy Poignault ; com a colaboração de Joseph Brami e Maurice Delcroix ; edição coordenada por Élyane Dezon-Jones e Michèle Sarde ; pref. de Josyane Savigneau.

Bibliografia
SAVIGNEAU, Josyane, Marguerite Yourcenar, l'invention d'une vie, Paris, Gallimard, coll. « NRF biographies ». 541 p. + 24 p. de planches, 1990.

Ligações externas

O Wikiquote tem uma coleção de citações de ou sobre: Marguerite Yourcenar.



"A condição das mulheres é determinada por estranhos costumes: elas são ao mesmo tempo dominadas e protegidas, fracas e poderosas, excessivamente desprezadas e excessivamente respeitadas".
"A liberdade das mulheres de hoje, maior ou pelo menos mais visível do que a dos tempos antigos, não passa de um dos aspectos da vida mais fácil das épocas prósperas; os princípios e mesmo os preconceitos não foram seriamente atingidos".
"Adaptar-me-ia dificilmente a um mundo sem livros, mas a realidade não está ali porque eles não a contêm toda inteira".
"Desprezar as alegrias do povo é insultá-lo".
"É um erro ter razão cedo demais".
"Julgamo-nos puros enquanto desprezamos o que não desejamos".
"Não estou certo de que a descoberta do amor seja necessariamente mais deliciosa do que a da poesia".
"No conjunto, é somente por orgulho, por ignorância grosseira, por covardia, que nos recusamos a ver, no presente, lineamentos das épocas que virão".
"O homem mais tenebroso tem seus momentos iluminados: tal assassino toca flauta; tal feitor é talvez um bom filho. Existem poucos a quem não se possa ensinar alguma coisa. O erro é tentar encontrar neles virtudes que não têm, neglicenciando as que possui".
"O que nos tranqüiliza no sono é a certeza de que dele retornamos. E ele nos cura temporariamente da fadiga pelo mais radical dos processos, isto é, arranjando para que cessemos de existir durante algumas horas".
"O triunfo não assenta senão aos mortos. Aos vivos, há sempre alguém para censurar-lhes as fraquezas".
"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas".
"Quanto amargor fermenta-se no fundo da doçura, quanto desespero esconde-se na abnegação e quanto ódio mistura-se ao amor".
"Tentemos, se pudermos, penetrar na morte de olhos abertos".
"Todo livro reeditado deve alguma coisa às pessoas honestas que o leram".
"Todo prazer sentido com gosto parece-me casto".
"O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar de inteligência sobre nós próprios".


Memórias de Adriano
"A felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor falta de delicadeza desfeia-a, a menor palermice embrutece-a

A Obra em Negro
"- Para eles, você não passa de um ateu.
- O que não é como eles parece-lhes contra eles - comentou amargamente Zenon."
"Mas não há ninguém tão tolo que não seja um pouco sábio."
"No recinto impregnado de vinagre em que dissecamos aquele morto, o qual não era mais o filho ou o amigo, mas apenas um belo exemplar da máquina humana, experimentei pela primeira vez a sensação de que a mecânica, de um lado, e a Grande Arte, de outro, tratam apenas de aplicar ao estudo do universo as verdades que nos ensinam nossos corpos, nos quais se repete a estrutura do Todo. Não seria bastante toda uma vida para cotejar um com o outro este mundo em que estamos e este mundo que somos. Os pulmões eram o fole que reanima a brasa; o pênis, uma arma de arremesso; o sangue nos meandros do corpo era a água circulante das canaletas de um jardim oriental; o coração, conforme se adotasse esta ou aquela teoria, era a bomba ou o braseiro; o cérebro, o alambique em que se destila uma alma..."
"Este corpo, nosso reino, parece-me às vezes composto de um tecido grouxo e tão fugidio quanto uma sombra."
"Matei alguns de meus pacientes por um excesso de audácia que curou outros. Uma recaída ou uma melhora importavam-me sobretudo enquanto uma confirmação de um prognóstico ou prova da eficácia de um método terapêutico. Ciência e contemplação não são em absoluto suficientes, irmão Henrique, se não se transmudam em poder: o povo tem razão quando vê em nós os adeptos de uma magia branca ou negra. Fazer durar o que passa, adiantar ou atrasar a hora prescrita, apoderar-se dos segredos da morte para lutar contra ela, servi-se de fórmulas naturais para ajudar ou frustrar a natureza, dominar o mundo e o homem, fazê-los, talvez criá-los..."

Denário do Sonho
"Paolo Farina era um tabelião ainda jovem, bastante rico e tão honesto quanto se pode esperar de um homem que vive na intimidade da Lei."
“O amor não se compra: as mulheres que se vendem apenas se alugam aos homens; mas compra-se o sonho – substância impalpável que se transaciona sob várias formas.”
“Giulio iludira-se na esperança de que as manias da mulher se fossem atenuando com a idade; envelhecendo, os defeitos de Giuseppa, ao contrário, haviam crescido monstruosamente como os seus braços e a cintura; sob a garantia de trinta anos de intimidade conjugal, ela não os dissimulava mais do que as imperfeições físicas.”
“Começara por nutrir relativamente a Carlo este sentimento de que somos mais ricos, a indiferença, pois que o devotamos a cerca de dois bilhões de seres humanos.”
“O caráter de Giuseppa pioraria com a idade e a intensidade do seu reumatismo: nem a própria Virgem conseguiria mudar a natureza de uma mulher de sessenta anos. Vanna continuaria a levar aquela vida solitária para a qual não fora feita, e a entregar-se às tentações do desespero. Talvez arranjasse um amante; nesse caso, haveria de sofrer mais do que sofrera até agora, porque a vergonha se juntaria a seus males.”




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